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ATIVIDADES DA BSFREUD
EM 2020


ATIVIDADES PRESENCIAIS SUSPENSAS
EM RESPEITO AS MEDIDAS DE PROTEÇÃO
CONTRA O VIRUS
COVID-19

Leitura do Seminário 16, 
de
Jacques Lacan:

  - De um Outro ao outro
  Segundas-feiras, das 20h30min às 22h.
  Coordenação:
  Luiz-Olyntho Telles da Silva


Leitura do Seminário18,
de Jacques Lacan:
  - De um discurso que não seria
    do semblante

 
Terças-feiras, das 17h30min às 19h.    
  Coordenação:
  Luiz-Olyntho Telles da Silva



Psicanálise e Literatura
- Leituras cervantinas

 
Na quarta quarta-feira de cada mês,
  das 19h30min às 21h.
  Coordenação:
  Luiz-Olyntho Telles da Silva.
 

TEXTOS RECENTES:

*  Pandemia, o Outro social e o uso dos meios
   tecnológicos na clínica psicanalítica
@
    p/ Luisa Bertolino

* A subjetividade na clínica hospitalar  @
    p/ Maria da Glória S. Telles da silva

* El análisis, su producción y la transmisión a
   partir del Covid19
 @
    p/ Cecilia Bach

* Psicoanálisis en tiempos de voz computarizada
   y mirada digitalizada
 @
    p/ Alvaro Tulaniche

* Fique em casa  @
    p/ Maria da Glória S. Telles da Silva
BSFreud - Programa de Estudos 2020

Leituras do
Seminário 18 de Jacques Lacan
DE UM DISCURSO QUE NÃO SERIA DO SEMBLANTE
1971



Início: 04 de agosto 2020
Horário: terças-feiras, das 17:30 às 18:10h.
Funcionamento: 10 encontro quinzenais, via plataforma Zoom.
Inscrições: para participar, os interessados devem enviar uma solicitação para o e-mail: bs.freud@uol.com.br,
com seu nome, escolaridade, profissão, motivação e instituição da qual faz parte.
Consideraremos as solicitações recebidas até 5 horas de antecedência do horário do encontro para enviar a senha do ingresso.
Os participantes serão admitidos na reunião, 5 minutos antes do horário. Os ingressos encerram no início da atividade.
Coordenação: M.Glória Telles da Silva, Maristela Leivas e Luiz-Olyntho Telles da Silva.



Não me toques


Maristela Costa Leivas

     A frase latina Noli me tangere (não me toques) é conhecida como referência a um trecho do Evangelho de São João, descrevendo a cena onde Maria Madalena, dirigindo-se a Jesus, após sua ressurreição, e manifestando a intenção de aproximação, leva a mão em sua direção. Em reação a este movimento, Jesus virando-se para ela, diz: não me toques, porque ainda não subi ao Pai. Estas palavras foram tema para intensos debates, gerados por diferentes interpretações entre os leitores do Evangelho. Desde que a cena se tornou assunto, foi retratada por muitos pintores na arte cristã.    
     Considerando o momento que estamos vivendo, frente aos cuidados em evitar a transmissão e propagação do Coronavírus (Covid 19) em nosso meio, com a consequente recomendação em manter o distanciamento social, retomo o estudo de um caso da clínica, no qual utilizo esta expressão como título. Noli me tangere, por aproximação às dificuldades de uma jovem mulher em tocar no dinheiro, operar caixas eletrônicos, e especialmente em se deixar tocar. Para seguir examinando o caso retomarei a teorização freudiana sobre o tema, onde lemos que tais dificuldades, associadas aos sintomas obsessivos, também poderiam ser chamadas como a doença do tabu.
     E, desde uma leitura sobre o tabu de contato, pretendo avaliar as possíveis repercussões da ordem: mantenha distanciamento, advinda dos cuidados atuais propostos pelos infectologistas, nos sujeitos que já se situavam antes da Pandemia, numa estrutura de evitação e isolamento nas relações sociais.
     Conforme lemos em Totem e Tabu (1913), o termo tabu tem uma significação divergente: por um lado inclui o sagrado, o consagrado; e, por outro, o perturbador, o perigoso, o proibido, o impuro. Como a origem da palavra tabu é Polinésia, o seu oposto nesta língua, seria o comum, o acessível a todos. Freud, partindo da hipótese de uma correspondência entre as crenças e costumes dos povos primitivos e a realidade psíquica dos neuróticos, dirá que as restrições do tabu quanto ao tocar são semelhantes às funções que operam nas fobias de contato, contudo, na neurose o significado secreto da proibição não se apresentaria tão evidente.
     Diz Freud que o tabu tem sua origem em uma proibição dos primeiros tempos, forçosamente imposta (por alguma autoridade) de fora, e dirigida contra os anseios a que estão sujeitos os seres humanos. O tabu se manifesta através de proibições e restrições, ou seja, o fundamento do tabu é uma ação interditada, a ordem é não tocar, para a qual existe uma forte inclinação no inconsciente em tocar. Escreve ele: a ordem da proibição é consciente, e corresponde a uma ação inconscientemente desejada. O sujeito não para de querer realizar esta ação de tocar, mas não tem o direito de realizá-la, incluindo a culpabilidade como um sentimento presente, caso um determinado ato se concretize. A proibição não se aplica meramente ao contato físico imediato, mas tem uma extensão tão ampla quanto o emprego metafórico da expressão “entrar em contato com”. Qualquer coisa que dirija os pensamentos ao objeto proibido, qualquer coisa que o coloque em contato intelectual com ele, é tão proibida quanto o contato físico direto.
     Entendemos que o ato de tocar torna-se um tabu, por que o tocar, é o primeiro passo para qualquer domínio, no sentido de apropriação, ou qualquer controle sobre uma pessoa ou objeto, envolvendo tudo que representa uma sedução ou concerne a um movimento de aproximação. Então, a ordem não tocar, inclui os dois movimentos, o desejo e a proibição. Na neurose, a proibição ao tocar se reveste de um caráter sexual. O contágio que ali se propaga ocorre através do deslocamento, a ordem não tocar como fonte de excitação sexual está associada à interdição de gozo, interdição como marca separadora da constituição subjetiva, separadora das relações com os primeiros objetos de amor, própria ao reconhecimento de diferença sexual e propiciadora da identificação edípica.
   No fundamento das proibições (tanto nos neuróticos, quanto nos tabus dos povos primitivos) está uma hostilidade inconsciente, um impulso hostil contra alguém, possivelmente um ser amado, que aparece como uma ideia de satisfação pela morte deste alguém. A possibilidade de realização de um ato hostil leva ao medo da morte ou uma ameaça de morte deste objeto de amor, atualizando a culpabilidade.  A culpabilidade é relativa a algo onde aparece uma interdição, na medida em que concerne ao desejo. Assim, o desejo dá lugar ao medo e evidencia a ambivalência de sentimentos, por um lado um sentimento imenso de afeição e por outro uma intensa hostilidade inconsciente. Aqui vale lembrar a provocação lacaniana: diga o que mais temes e te direi o que desejas.
     Para encaminharmos a análise de um caso, vemos como importante identificarmos qual o laço entre o sujeito e o objeto do tabu, ou seja, como se constrói a fantasmática. Na história anteriormente referida observamos que a evitação em lidar com o dinheiro e operar caixas eletrônicos, levou a jovem a delegar estas ações, mais frequentemente a sua mãe. Ao lado desta dificuldade relatava sua familiaridade e muita habilidade com o computador e atividades afins, e esta era sua área de estudos universitários. Justificava sua inibição dizendo que os caixas se situavam em ambientes de circulação social e sentia-se exposta ao olhar do outro, ou à crítica quanto ao tempo que necessitaria para a atividade ser concluída, e também estava a ideia de que enquanto realizava a operação, estaria sendo observada. Quando se obrigava a fazê-lo, negava-se a sacar dinheiro, pois o dinheiro lembrava algo sujo, que já teria passado por muitas mãos, realizando no caixa somente outras funções. Com a chance de realizar várias operações através do aplicativo do banco, sua angústia parecia mais controlada. Contudo, na relação com seu namorado, também se produziam inibições, não dormia uma noite inteira ao seu lado, referindo que só dormia bem em sua própria cama, desacompanhada. E, por muito tempo, o diálogo entre eles fluía melhor através de mensagens escritas, preferiam conversar à distância. Assim que, com a Pandemia deixaram de se encontrar pessoalmente.  A jovem residia com os pais e seguiu com tranquilidade à ordem de não sair de casa, sem resistir a ela. Dizia que seria melhor deixar para depois o namoro e adequava-se à nova conformação da rotina. O fato de todas as questões serem resolvidas desde a casa fez com que a relação entre ela e os pais se tornasse mais próxima, já não estavam as brigas pelo fato dela sair de casa para outras atividades, podia compartilhar o horário das refeições, o que era fundamental para a mãe; e estando em casa poderia assistir filmes com seus pais e o irmão, preparar pratos especiais para as refeições e certamente as brigas entre o pai e a mãe seriam aplacadas, uma vez que, estariam todos juntos, como costumava ser a expressão de satisfação da mãe. Caracterizava a mãe como uma pessoa dominadora, que exercia total controle sobre tudo e sobre todos da casa. Diante da mãe, o irmão, o pai e ela, já sabiam como proceder; um olhar entre eles e sabiam como evitar uma crise de insatisfação da mãe, todos se colocavam de maneira a servir seus desejos e comandos, evitando que se desenrolasse uma explosão.
     Seguindo com a ideia de identificar o laço entre o sujeito e o objeto do tabu, vale lembrar que um dos objetos tabu, o caixa eletrônico aí em questão, porta esta propriedade misteriosa que irá declarar a fantasia de castração em jogo, esta que está na base de uma neurose e teremos necessariamente de encontrar e superar, ou que não cessaremos de encontrar e superar. Como uma caixa preta, o caixa eletrônico produz informações valiosas e secretas, é uma máquina que reconhece aquele que a maneja, estabelece alguma relação com aquele que faz uso dela e de outro modo, como máquina que é, exclui o sujeito. A angústia  caracterizada neste caso, implica a questão do olhar e, como tal, aponta a angústia de castração própria a estrutura histérica. A angústia dispara frente a ideia de estar sendo observada, um outro repararia em algo que remeteria a imagem de que falta algo ao sujeito naquela operação. Faltaria a habilidade para acionar o caixa, poderia faltar o dinheiro que também não está disposta a sacar? De qualquer modo, o olhar do outro seria revelador de que algo falta. A ameaça da visão da castração é colocada em cheque e a angústia é transferida para o corpo ou para um objeto externo. O excesso de erotização do corpo desde o olhar do outro, implica neste caso, numa inibição da ação. O caixa eletrônico por apresentar esta característica perturbadora e impura associada ao dinheiro dá margem a muitas significações. E conhecemos a equivalência simbólica entre dinheiro e sujeira, entre dinheiro e fezes, dinheiro e falo, dinheiro e domínio. O dinheiro é um significante abrangente e é um tema desenvolvido por Freud em Caráter e Erotismo Anal (1908).
     À evitação ao uso do caixa eletrônico, associamos a divergência nas intenções da analisante que, ao mesmo tempo em que pretende alguma independização do meio familiar, algum domínio sobre sua própria vida, evita tocar no dinheiro, tê-lo em sua própria mão. Ao não tocar distancia-se do que parece representar algum domínio sobre a situação e entrega aos cuidados da mãe tal ação. Paralelo a isso, reluta em ter acesso a satisfação sexual, neutralizando o valor erótico da relação com o namorado, destaca que isso pode ser deixado para depois. Em contrapartida, é mantida a relação sintomática, angustiante por que aponta ao incestuoso, no retorno ao fechamento familiar. Não haverá brigas por que o distanciamento social, dos outros, foi adotado. Contudo, os movimentos de separação dos primeiros objetos de amor serão adiados e o desejo de separação será mantido à distância.
     Lembramos que em tais organizações neuróticas, onde se evidenciam os sintomas obsessivos estará sempre presente uma questão de vida ou morte. Como será muito difícil se enfrentar com a morte, aí equivalente a dizer não a satisfação do desejo da mãe, ao desejo do Outro; o sujeito seguirá neutralizando a morte e mantendo o erótico excluído, como se, deste modo, alcançasse preservar a vida. Tal sintomatologia se acomoda muito bem às solicitações de manutenção de distanciamento entre as pessoas nestes tempos de Pandemia, também justificado no isolamento pela preservação da vida.
Assim que, deveremos estar atentos aos efeitos da solicitação de isolamento social nos tempos atuais, pois poderá incidir como uma contribuição externa à paralisia de um movimento antes iniciado na análise, servindo e acomodando a sintomatologia, e incluindo um certo tabu de pensar, entrar em contato com o que se passa na intimidade das relações.

Porto Alegre, julho de 2020.


Tempo de quarentena

Maria da Glória S. Telles da Silva

É bastante conhecida a frase enunciada por Freud, em setembro de 1909, ao avistar a estátua da liberdade, quando desembarcava em Nova York para suas Cinco lições de Psicanálise, na Clark University (Worcester, Massachusetts, EUA), por ocasião de seu vigésimo aniversário. Naquele momento, teria dito a Jung: Eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste.1  Nada como uma linda metáfora para dizer do seu desejo de que a psicanálise, por ele inventada, se espalhasse pelo Novo Continente!

E, quando não mais estamos diante de uma metáfora, mas da real ameaça de uma peste, alastrada pelos quatro cantos do globo, devastando vidas, planos e sonhos de grande parte da humanidade, quais os efeitos na subjetividade desse tempo que estamos vivendo? O que pensar quando um elemento ínfimo, invisível a olho nu, do qual não temos nenhum controle, mas que tem nome e sobrenome, torna-se o inimigo público número 1 e ameaça a toda a humanidade, espalhando o medo e colocando a morte real como centro de nossas ações e, principalmente, de nossa paralisia?

O que teria levado Freud a fazer essa aproximação da psicanálise com a peste?

E qual a diferença dessa peste, anunciada por Freud, como sinônimo da psicanálise, daquela que agora temos de enfrentar?
Creio que quando Freud faz a uso dessa metáfora, está se valendo de ao menos dois pontos relevantes presentes numa disseminação por peste: a de ser identificada pelos efeitos que produz, pois ambas não são objetos tangíveis, e a de ser contagiante, como expressão de desejo de que a psicanálise se alastrasse pelo mundo.

Diria que considerando esses sentidos, por mais variações ou distorções que a psicanálise tenha adquirido ao longo desses mais de 100 anos de existência, Freud acertou em seu vaticínio.

Quanto às diferenças entre uma peste e a psicanálise é que quem transmite a psicanálise, este sim coloca uma intenção de que seu trabalho se propague e se espalhe o mais longe possível, efeito não desejável com relação a uma peste. Com relação à morte, presente como possibilidade quando se refere a uma doença e temida por significar o fim radical da vida, para a psicanálise, ela é antes de tudo um conceito estrutural que deve ser considerado para ajudar a construir a vida.

Freud nos alertou para o fato de que no inconsciente não há registro da própria morte, a do corpo biológico, enquanto fim absoluto da vida. Essa é um elemento do real e, por isso, impossível de ser contornada. Produz horror pensar nela e muitos escapam disso negando esse fato irremediável da vida e ao se descuidar, podem chegar mais cedo ao encontro dessa morte. Mas, enquanto um elemento simbólico que representa um limite, a finitude, a morte é de extremo valor para gerar e enriquecer a vida, pois é justo no limite, no reconhecimento que tudo não se pode, que se abre a possibilidade de nos tornarmos responsáveis pela vida que temos, cuidando e valorizando-a, já que cada momento vivido será único.  

O mundo está em quarentena, ou seja, num compasso de espera e isolamento, aguardando que a solução para a retomada de uma normalidade seja apresentada por aqueles que, a rigor, detém o saber formal sobre a vida e a morte: a ciência.

Será que só nos resta aguardar o surgimento desta ‘solução’ para que cada um possa retomar a vida em suas mãos, e continuar vivendo-a ao seu modo, de acordo às suas condições e particularidades? Será que estamos completamente submetidos a um encarceramento que põe todos funcionando sob de um modelo uniforme, como uma única preocupação, e um único inimigo: um vírus potencialmente mortal?

Não temos alternativas?

Tudo o que tende a redução e simplificação do sentido da vida potencializa a mortificação do homem.

Estaremos reduzidos a um corpo que devemos preservar para que possamos continuar a ter vida?

É certo que, sem a vida, este bem maior, nada podemos fazer. Mas também, qual o valor de ter uma vida se reduzimos seu sentido à sobrevivência do corpo?

Como viver, então esse tempo de quarentena?

Talvez, mais uma vez, a peste anunciada por Freud possa fazer aí uma diferença.

A origem do termo quarentena, não é única. Segundo o dicionário Houaiss, vem do francês, quarantaine, quarenta (1180); onde o isolamento de quarenta dias era imposto aos viajantes para evitar a disseminação de doenças contagiosas.
2  Já, segundo Leser et al., o termo quarentena originou-se da prática medieval de manter sem comunicação nos portos em que arribavam, durante quarenta dias, os navios procedentes de determinadas áreas e sobretudo do oriente.3  E Santos e Nascimento, em artigo de revisão, reportam entre seus achados que o valor de 40 dias atribuído ao nome da prática – quarentena – tem origem nos primórdios da prática de vacinação antivariólica na China Antiga. Segundo suas referências, observava-se que as crostas extraídas dos acometidos por varíola permaneciam infectantes por cerca de 40 dias e essa observação difundiu-se como práticas culturais as mais diversas, com objetivo de purificação ou contenção da propagação de doenças.4

Portanto, essa prática remonta a antiguidade, sendo a função da quarentena, principalmente, obstaculizar a transmissão de algo, neste caso, prioritariamente, o vírus Sars cov 2, mas não só. Outras transmissões também ficam sujeitas à interrupção por efeito dessa quarentena. Este termo, vigente até hoje, é uma metáfora usada para tudo o que se entende como devendo ficar num tempo de isolamento para não causar dano a um sistema maior. Portanto, quando o mundo é colocado em isolamento, uns dos outros, estamos barrando muito mais que a transmissão de um vírus, e a extensão dos benefícios e danos desse isolamento, do ponto de vista econômico, social e emocional, ainda são desconhecidos.

Estamos sendo sufocados por uma enxurrada de mensagens que nem sempre têm a ver com a verdade dos fatos. Elas inundam nossas vidas, exigindo ainda mais da capacidade de cada um de filtrar e avaliar tanto no que se deve confiar como no que está apenas a serviço de nos manter reféns do medo de viver.

Quais os efeitos disso em nossa subjetividade?

Em nosso trabalho na clínica psicanalítica, testemunhamos, diariamente, a angústia e o sofrimento das pessoas que se sentem esvaziadas no desejo de viver, buscando respostas a esse vazio e essa falta de sentido de suas vidas, produzindo diferentes sintomas que muitas vezes paralisam e ameaçam sua existência. Como tentativa de enfrentar esse vazio, muitas vezes as pessoas são levadas ao consumo crescente de objetos que só fazem ampliar ainda mais essa impotência do nada saber do que deseja. Esses objetos, no mais das vezes, são definidos pelo apelo social do consumir, ao invés de reconhecidos como derivados das idiossincrasias de suas próprias marcas, fruto de seu desejo.

Quando uma pessoa se dispõe a uma análise, abre a possibilidade do reconhecimento dessa particularidade que o impulsiona em suas motivações e desmotivações pela vida, oportunizando o encontro de uma forma singular de saber fazer e viver com as marcas que sua história lhe proporcionou.

Por isso, um processo de análise demanda investimento e é sempre um desafio. Mas, quando somos interrompidos no curso que estávamos vivendo e levados a apenas agir e pensar num inimigo supremo, maior que todos os demais problemas que temos de enfrentar, porque este inimigo coloca em cheque-mate a vida ou a morte, fazendo com que o deslocamento e condensação dos conflitos se reúnam em um só ponto, um vírus, isso traz um desafio ainda maior para o trabalho psicanalítico.

Como fazer para que a transmissão da psicanálise siga ativa em tempos de pandemia?

Não há uma formula única, que se possa generalizar. Esta é mais uma contingência a ser incluída no trabalho que realizamos, e cabe a cada analista encontrar a forma mais propícia de sustentar seu trabalho, segundo sua leitura do modo particular com que cada analisante suporta esse tempo de restrições, sem ignorar que as questões singulares da vida seguem ali, produzindo efeitos. Seguir dando importância a elas é também uma ação fundamental nesse tempo de quarentena, visando não sucumbir aos efeitos da paralisia e perdas, impostas pela pandemia.

Notas:
1. LACAN, J. La cosa freudiana o sentido del retorno a Freud en psicoanálisis. In: Escritos 1. Siglo Veintiuno Editores, Argentina, 14 ed. 1988. (pg. 386)
2. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 'quarenta', (ano 1180-1190) 'espaço de quarenta dias', (1200) 'quaresma', (1635); no italiano quarantena, em uso desde 1403, por determinação do governo de Veneza; 40 dias talvez por imitação
da Quaresma; possivelmente, tratar-se-á de importação do fr., pois neste o vocábulo já aparece no séc. XII.quarenta +-ena; ver quatr-; f.hist. sXIV quarẽtenas, sXV coremtenas, sXV quoremtena.
3. LESER, Walter et al. Elementos de epidemiologia geral. RJ: Atheneu, 1985 p.144
4. SANTOS, Iris Almeida; NASCIMENTO, Wanderson Flor. As medidas de quarentena humana na saúde pública: aspectos bioéticos. Revista - Centro Universitário São Camilo - 2014;8(2):174-185.